A depressão na psicanálise e o fenômeno biopsicossocial da doença.

Nossa sociedade acelerada, líquida e emocionalmente frágil, vem revelando cada vez mais transtornos e sofrimentos psíquicos, frutos de eventos vivenciados de forma diferente e que por vezes são recalcados e guardados de maneira não perceptiva e prejudicial.

Chamados antigamente de doenças mentais, por muito tempo a psiquiatria, gerada pela neurologia numa visão mais materialista, tratou esses males com intervenções medicamentosas que visavam controlar a mente do doente. Como o conceito pleno de mente segue incerto, a profundidade e mistérios envolvidos nesses processos cognitivos, emocionais e instintivos, tornam este tema bastante desafiador nos quesitos de diagnóstico, encaminhamentos e tratamentos.

Um dos principais quadros clínicos que ruminam humor e regulam atitudes é a depressão. Ela pode estar relacionada com pensamentos excessivos e ruminantes do passado, bem como manifestar que um corpo está internamente adoecido.

A depressão é um distúrbio afetivo presente na história da humanidade. É comum nesta patologia a presença de tristeza, baixa auto-estima e pessimismo, frequentemente presentes e produzindo a anedonia, que refere-se a perda da capacidade de sentir prazer com as coisas que o indivíduo antes tinha motivação para executar.

Um pouco diferente de como esta medicina clássica encara, a definição para depressão no ponto de vista psicanalítico considera a doença como uma neurose subjacente, sinalizando que o corpo não está bem ou algo não está ajustado. Se fizermos uma similitude com a febre que é um sintoma de uma infecção no organismo, entenderemos mais interativamente o conceito de depressão para a psicanálise.

Como fenômeno psicanalítico, esta psicopatologia direciona para estruturas de neurose e psicose, diferenciando-se da psiquiatria que passa a responder de forma medicamentosa, produzindo um tamponamento da dor, enquanto a psicanálise abre possibilidades do diálogo entre o sujeito e a sua dor. Uma conversa entre o indivíduo e o seu sofrimento.

Sobremodo, nessa abordagem, as palavras podem elucidar de dentro para fora, produzindo o início do viés clínico psicanalítico e suas estruturas clínicas de neurose, psicose e perversão.

Se considerarmos algumas questões que suscitam uma reflexão sobre a depressão, encontraremos traços melancólicos bastante peculiares, que de uma forma geral, manifestam-se como uma estrutura clínica de neurose histérica.

A depressão se apresenta de diversas formas. Alguns dos sintomas da depressão podem sinalizar o diagnóstico, como alterações de peso por comer muito ou pouco, baixa auto-estima, pensamentos negativos, pensamentos suicidas, baixo desejo sexual, irritabilidade, dificuldade na concentração e no raciocínio, mudanças de sono e sentimentos de culpa.

Sua manifestação se dá por vários tipos, como no episódio depressivo, distimia, depressão bipolar, depressão atípica, depressão sazonal, depressão pós-parto, depressão psicótica, dentre outras.

Na depressão psicótica, por exemplo, o indivíduo passa a conviver com episódios de delírio e alucinação, decorrentes dessa condição. Por esse motivo, a depressão psicótica é considerada grave.

Os especialistas já há algum tempo vêm alertando para uma epidemia de vários transtornos e doenças psíquicas, posto que a depressão, como exemplo, já afeta silenciosamente a nossa sociedade, carregada de sofrimentos biológicos, psicológicos e sociais. Como resultado, a queda na qualidade de vida, além de prejuízos econômicos globais, tanto por questões de improdutividade, medo paralisante, pânico, incluindo ansiedade e suicídio.

Precisamos encarar a depressão seriamente como doença, removendo esse estigma da saúde mental. Ela é crônica, recorrente e complexa. Além de afetar estados de ânimo, a depressão diminui comportamentos adaptativos, causando irritabilidade e falta de motivação. Isto faz com que a pessoa que sofre, esteja completamente suscetível a outras doenças psíquicas e quedas na saúde biopsicossocial.

A depressão é química. É necessário considerar que existe uma falta de neurotransmissores nas pontes sinápticas entre neurônios, uma vez que as conexões neuronais são prejudicadas com a falta de uma boa química cerebral. Como exemplo, temos o 5-HTP (5-hidroxitriptofano) que é um precursor do neurotransmissor serotonina. O aminoácido triptofano é convertido em 5-HTP que por sua vez dá origem a serotonina, considerado o hormônio da felicidade e do bem-estar. Pacientes depressivos possuem baixos níveis de serotonina, produzidas quase que inteiramente no intestino.

Com a diminuição do neurotransmissor serotonina, as composições mentais tornam-se incompletas e demasiadamente fracas, necessitando de intervenções psicoterápicas para recompor um padrão de pensamento adequado, incluindo em alguns casos o tratamento com fármacos que vão recaptar serotonina e permanecer, ainda que de forma parcial, esse importante processo de ligação neuronal.

O que torna a depressão preocupante é o fato de ser um transtorno de humor comum, sobretudo grave. A desmotivação, sensação de derrota e a perda de interesse em atividades que em momentos anteriores traziam prazer, faz com que o depressivo perca toda e qualquer esperança de recomeço e de vida normal. A ajuda psicoterápica é fundamental para a interpretação, clareza e adequado tratamento de acordo com a história clínica de cada indivíduo.

Conjuntamente com a depressão, a ansiedade bate recorde em nosso meio, apresentando sintomas de medo constante, preocupação exagerada com si mesmo e percepção de mundo alterada que não condiz com a realidade (despersonalização e desrealização), além de nervosismo, dificuldade de concentração, pensamentos descontrolados e obsessivos sobre uma determinada situação ou problema.

Em resumo, os transtornos depressivos deprimem humor, causando perda de interesse e prazer, acompanhada de fortes sensações de tristeza, incerteza e negação. Em pacientes deprimidos, a preocupação sobre o tema é intenso. Cerca de dois terços de pacientes depressivos pensam em se matar, ficando o ato em si com um percentual de 10 a 15% de óbitos relacionados ao suicídio pós depressão.

Quando o paciente enfrenta um período mínimo de duas semanas de sintomas, o diagnóstico pode ser o transtorno depressivo maior. Geralmente o TDM envolve humor deprimido e perda de prazer ou interesse. Avaliar as gravidades e os níveis dos episódios também ajuda no diagnóstico.

A diminuição de energia, de conclusão de tarefas e desempenho escolar e profissional são alguns dos fatores que merecem atenção no desenvolvimento de tratamentos integrativos. O modelo de saúde biopsicossocial vem apresentando soluções pertinentes e bastante esclarecedoras no processo doença-saúde.

Um tópico interessante sobre o modelo biopsicossocial está relacionado com um indicador científico que relata o intestino, um produtor de 95% da serotonina, neuroquímico responsável por sensações de bem-estar e felicidade no cérebro. Outro índice é o da dopamina, que marca uma produção de 50% sendo gerada no sistema digestivo. As novas descobertas do sistema nervoso entérico são incríveis.

O sistema nervoso entérico é bem extenso. Como já abordamos no início, ele começa no esôfago, termina no ânus e recobre toda a área do nosso sistema digestivo que tem uma extensão média de 10 a 12 metros. Dentro desses órgãos, como é o caso dos próprios intestinos, existe uma vasta camada de neurônios. Isso mesmo! Neurônios dentro do intestino, que por sua vez pode apresentar soluções biológicas favoráveis.

Terapias que visam produzir interação da consciência sobre o paciente que sofre de pensamento excessivo do passado, também esta inserida numa forte área de atuação, com eficiência comprovada. Métodos terapêuticos como a análise psicanalítica, podem revelar um inconsciente recalcado e opressor envolvido nesta neurose. Interações sociais e grupos de apoio podem produzir um novo olhar acerca do aspecto social, tão importante e fundamental para o tratamento da depressão. Além do modelo biopsicossocial, a integração de métodos como a psicanálise, tornou possível o entendimento das dinâmicas de vida real do paciente, coincidindo com os estudos que tratam saúde mental e seus casos clínicos estudados.

Além de melhorar a percepção sobre si mesmo, a psicanálise pode atuar como terapia para a depressão, produzindo uma percepção sobre o ser humano que atravessa o transtorno e o mundo que o cerca. Entender a dor e o sofrimento psíquico são compreensões possíveis de serem vivenciadas. Aproximar a melancolia como coadjuvante pode ser um caminho. Como sentimento profundo e permanente de tristeza junto a consciência, produzir diálogo entre o humano e essa melancolia, destacam-se no processo analítico.

Contudo, a psicanálise vem como um entendimento que se preocupa em classificar como funciona a mente depressiva, partindo do princípio que os processos psíquicos são inconscientes as nossas emoções e as nossas atitudes são resultados de fatores não conscientes. A abordagem psicanalítica pode promover para quem sofre de depressão um pensar mais claro sobre o as origens, o sentir, o agir e o viver.

Saúde, paz e bem.

Álex Cavalcante

Saúde Mental, Neuronutrição e Mentoria Clínica.

www.alexcavalcante.com.br

Empresário, fundador e CEO do Grupo PRODUZA, publicitário, multiartista, neuropsicobiomédico clínico da saúde.

Empresário, fundador e CEO do Grupo PRODUZA, publicitário, multiartista, neuropsicobiomédico clínico da saúde.